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| O lançamento recente de um novo álbum ao vivo do Pink Floyd não mereceria em si muito destaque, não fosse pelo fato de se tratar das gravações originais dos antológicos concertos da tour de lançamento do genial álbum "The Wall", talvez a última grande obra do grupo.
Já passaram vinte anos desde que estas gravações foram feitas, mas somente agora o público tem acesso a este material, até então disponível apenas através de bootlegs, isto é: discos piratas, a maioria dos quais de qualidade duvidosa. Agora este momento mágico da história do Floyd recebeu finalmente a atenção devida, com uma edição limitada primorosa, com um encarte rico em fotos que documentam os diversos cenários do show… um dos mais ambiciosos jamais realizados por uma banda de rock. A edição normal do CD duplo também não deixa de lado este importante registro, ainda que menos espetacular que a box-set especial. |
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Na verdade a história do Pink Floyd sempre esteve de um modo ou de outro ligada a uma abordagem estética do rock, não apenas no caráter do estilo musical, mas da própria apresentação como um todo da sua produção - indo das capas antológicas dos álbuns até as produções ambiciosas antes, durante e depois das tours.... |
| Com o nome tirado de dois grandes nomes das origens do blues (Pink Anderson e Floyd Council), o Pink Floyd surgiu em meados dos anos sessenta como uma das muitas bandas inglesas que tocavam blues, mas com uma diferença: eles tinham um guitarrista completamente alucinado chamado Syd Barret. |
| Ele era o líder do grupo neste período, e foi graças a ele que a banda se tornou a mais importante do cenário psicodélico inglês a partir de 67, quando chegaram as paradas com seus primeiros compactos, e com o álbum de estréia, "The Piper at the Gates of Dawn", que muita gente coloca no mesmo nível de um "Sgt. Pepper's" dos
Beatles... |
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O Gaiteiro Nas Portas Do Amanhecer", o primeiro álbum do Floyd, uma das obras-primas da psicodelia. |
| Depois deste primeiro disco, o Pink Floyd passou a liderar o underground do rock inglês, com o seu som espacial se encaixando naquela época de corrida para a Lua e em plena era da "Swinging London", quando a capital inglesa era uma das Mecas da psicodelia. Infelizmente, quem não estava muito feliz com a atenção que recebia era o próprio Syd Barret, que começou a mostrar sinais claros de que as suas psicoses não eram só encenação. A lenda é de que chegava a passar shows inteiros sem tocar uma nota, só segurando a guitarra e olhando fixamente para a platéia. Apesar da genialidade, ficou claro para os outros membros do grupo que eles precisavam, no mínimo, de um guitarrista sobressalente.
No começo de 68, o Pink Floyd já estava com outro guitarrista, o amigo David Gilmour, que tocaria nos shows, enquanto Syd Barret continuaria a compor. Mas a idéia ficou só na intenção: Syd acabou deixando o grupo de vez antes do fim do ano, e eles tiveram de se virar como podiam, sem o seu gênio excêntrico. Mas o Floyd não acabou. Reunindo ecos da psicodelia com nascentes explorações que iriam culminar no rock progressivo, o grupo continuou com uma proposta renovada, levando suas viagens para o cinema através de filmes como "More", de 69, e o lendário "Zabrieskie Point" de Michel'Angelo Antonione, de 70. Sob a liderança do baixista Roger Waters, eles continuaram experimentando com moogs, órgãos hammond, pedais de efeito e toda a sorte de parafernálias, e o seu som tornou-se uma das marcas registradas do rock nas anos seguintes, quando o grupo superou de vez as dificuldades causadas pela saída de seu primeiro e carismático guitarrista. Durante a nova década, o Floyd iria continuar crescendo sem parar, com cada álbum tornando-se mais bem sucedido que o anterior. O primeiro seria o duplo "Humagumma", um genial trabalho misturando um disco de estúdio com outro ao vivo. Depois viriam os geniais álbuns: "Atom Heart Mother", "Medle" e "The Dark Side of the Moon", todos clássicos do rock, progressivo ou não, totalmente indispensáveis. Já em "Atom Heart Mother" e "Meddle" o Floyd mostrava que ainda tinha muito a dizer depois de sua era psicodélica, mas foi só com "The Dark Side of The Moon", lançado em 73, que eles atingiram o sucesso mundial, chegando ao primeiro lugar das paradas nos Estados Unidos, onde o seu rock cósmico conseguiu um record até hoje inabalável, de 741 semanas na parada da Bilboard - nada menos que mais de 14 anos seguidos entre os 100 mais vendidos... |
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Até hoje, "The Dark Side of the Moon" é um dos mais conhecidos discos da história do rock no mundo todo. Mas, ao contrário de outros grandes grupos, o Pink Floyd não desmoronou depois desse incrível sucesso. |
| O álbum mais bem sucedido do rock progressivo: "The Dark Side of The
Moon". |
| O disco seguinte, "Wish You Were Here", uma homenagem a Syd Barret, também conseguiu chegar aos primeiros lugares, mesmo conservando a mesma poesia amarga, cheia de temas que detonavam com a esterilidade da vida moderna, enquanto os riffs da guitarra de Gilmour ficavam cada vez mais espaciais.
Aí pelo fim dos anos setenta, a liderança do Floyd estava claramente nas mãos do baixista Roger Waters. Ele tinha sido o principal responsável pelo direcionamento do grupo para uma proposta mais consciente, onde os complexos temas melódicos fossem eco de uma temática cerebral nas letras, que ficou ainda mais clara no seu álbum que fechou a década, "The Wall", de 79. Ninguém esperava que eles repetissem o sucesso, ainda menos com um álbum duplo conceitual, que lidava com angústia existencial e usava a metáfora do muro para criticar todas as formas de opressão que criam barreiras entre as pessoas, indo da família e da religião à política e ao Estado. Mas o tema pesadíssimo recebeu um tratamento impecável, com a banda mostrando toda a sua criatividade já a partir do compacto para "Another Brick in the Wall (part 2)", que chegou ao primeiro lugar das paradas ajudado por um dos primeiros video-clips da história - com a lendária marcha dos martelinhos vermelhos... O álbum "The Wall", e o filme do grande cineasta Allan Parker, acabaram se tornando mais um improvável sucesso do Pink Floyd, atraindo ainda mais fãs para o grupo, principalmente durante uma gigantesca tour mundial, onde os shows eram verdadeiras celebrações... |
| A produção dos shows era ambiciosa, envolvendo a famosa construção do Muro (ou da Parede, dependendo da tradução preferida) em volta do grupo, durante o crescendo que culminava com a sua derrubada ao fim de cada show em meio a efeitos pirotécnicos. Com esse set, o Floyd tinha que limitar-se aos lugares onde pudesse executar a complexa construção dos cenários. Isso se tornaria um problema constante nos anos seguintes, quando eles enfrentariam outra crise, mas também outros sucessos. |
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"The Wall" a antológica viagem do Floyd pela angústia existencial e pelo encarceramento social do indivíduo. |
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Para muita gente o "verdadeiro" Floyd acabou depois da tour de "The Wall". O seu álbum seguinte, "The Final Cut" de 83, mostrava o grupo deprimido, em meio à atmosfera pesada da Inglaterra no início dos anos oitenta, com a ascensão da direita, a famosa crise da greve dos mineiros e, para completar, a improvável Guerra das Falklands/Malvinas de 82. Este conflito inesperado que custou centenas de vidas tanto para os ingleses quanto para os argentinos, chegou mesmo a ser o tema de um videoclip que combinava em uma só suíte varias faixas do disco. Mantendo a sua perspectiva em meio ao patriotismo que se seguiu depois da vitória inglesa na guerra, o Floyd fez um vídeo que mostrava a verdadeira realidade daquela luta no fim do mundo: a solidão de um casal idoso cujo filho não voltaria para participar das comemorações. Seriedade e eloqüência como essas não ajudaram o grupo, criticado pela mídia patrioteira por estar sendo "preachy", isto é: querendo dar lições de moral. A verdade é que o mundo dominado pelos ditames do mercado facilmente cai vítima da necessidade de submeter seus valores, como foi demonstrado em 90/91 durante a entrega do Grammy, quando todos os músicos (incluindo bandas importantes como o Aerosmith) manifestaram apoio total à Guerra do Golfo - uma atitude impensável em épocas mais distantes, quando o rock se entendia como uma manifestação incompatível com a ideologia da guerra. Daquele episódio vale lembrar a dignidade inabalável do grande Bob Dylan, que compareceu à festa para cantar "Masters of War", seu libelo anti-guerra, e recebeu seu prêmio com um rápido mas visceral discurso, no qual afirmava sua vergonha por estar ali e pelo que estava acontecendo... inesquecível. Este tipo de atitude sempre será recebida com frieza pelas mídias submissas, e o mesmo não podia deixar de acontecer na época de "The Final Cut". Além disso, o trabalho era denso demais, o que facilitava as acusações de que o Floyd não passava de uma "banda chata dos anos setenta". No que se referia ao grupo, até o nome do disco anunciava uma ruptura, e os membros lançaram alguns trabalhos solo logo depois, dando a impressão de que "The Final Cut" seria mesmo o seu canto do cisne… mas o guitarrista David Gilmour tinha outras idéias. Em 86, enquanto estava envolvido em seus projetos solo, o baixista Roger Waters teve que brigar na justiça com os seus antigos colegas para ver quem tinha o direito do nome do grupo. Até então líder do Pink Floyd, ele perdeu para os advogados de Gilmour & Cia., e o resultado foi o lançamento em 87 de "A Momentary Lapse of Reason", que trazia de volta o tecladista Rick Wright, mas tinha no baixo o intrometido Tony Levin... e nada de Roger Waters. Apesar do choque, o disco vendeu bem, principalmente pela impecável produção do grande Bob Ezrin (responsável pelos melhores trabalhos de grupos como Kiss e Alice Cooper). Apesar de fãs e crítica acharem o disco muito convencional, as vendas mostraram que o velho Floyd, mesmo sem a lírica amarga de Roger Waters, ainda conseguia dar o seu recado. E o quinto lugar nas paradas garantiu que eles ainda teriam muitos discos pela frente… Infelizmente, apesar de trabalhos consistentes como "The Pros. and Cons. Of Hitchkiking", Roger Waters não conseguiu recuperar o contato com o seu público depois de sair do Floyd. Assim como acontecera com Syd Barret, ele foi vítima da sua própria originalidade, com propostas ambiciosas como "Radio Kaos" (uma crítica bem humorada à comercialidade das rádios americanas) caindo na obscuridade justamente por sua temática. Só por um breve instante ele voltou a ser notícia, em 89, quando organizou em Berlin um mega concerto transmitido ao vivo para o mundo todo, incluindo o Brasil (pela TV Bandeirantes). O super show, que contava com um verdadeiro quem é quem do rock e até a Orquestra do Exército Soviético, comemorava 10 anos da sua obra-prima: "The Wall", e também celebrava a queda de um Muro de verdade, o Muro de Berlin. Mas esta foi a sua última tentativa de resposta ao Floyd, que lançara um ano antes um bem sucedido duplo ao-vivo: "Delicate Sound of Thunder", que vendeu muito mais que o novo "The Wall" de Roger Waters... depois disso, ele desistiu de brigar. |
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O próprio Pink Floyd ficou um tempo sem gravar, lançando só um álbum de estúdio nos anos noventa: "The Division Bell", de 95. No mesmo ano ainda sairia mais um ao vivo, "Pulse", aproveitando a popularidade incomparável dos concertos do grupo, cada vez mais elaborados e cheios de efeitos. |
| "Delicate Sound of Thunder", o live do Floyd que merece ser ouvido, só para se perceber como Roger Waters faz falta... | |
Mas se o sucesso continuava, o mesmo não podia ser dito do entusiasmo do grupo, em parte pela pressão da mídia, que criticava a falta de radicalidade nos seus trabalhos depois da saída de Roger Waters. Também não faltaram boatos do seu retorno para o Floyd mas, por enquanto, nem sinal do prometido novo álbum de estúdio. Em compensação, os fãs acabaram de ganhar um presente há muito esperado, um novo duplo ao vivo, desta vez gravado em 80, trazendo a íntegra dos antológicos shows da tour de "The Wall"... e quem quiser ver a falta que faz o velho Roger, é só comparar este registro que só agora chega às lojas com o dos outros dois live que o Floyd produziu desde a saída do seu exilado líder. |
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Violeta
de outono, Avante
Gália, Invasão
dos Covers
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