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| Proveito a presença do filme "Asterix" nos
cinemas para falar dos gauleses da aldeia invencível. Só uso a brecha -
não vou tocar no filme, porque o Cley só me paga prá escrever sobre
quadrinhos. E só considero as aventuras do gaulês até "Asterix chez les belges"- daí prá frente é outra coisa. Com o mesmo excelente desenho, é claro, mas sem o toque satírico que só Goscinny sabia dar. Em tempos de globalização, a alegoria da "resistência ainda e sempre ao invasor" é mais preciosa do que nunca. Que bom se tivéssemos uma fração, mínima que fosse, do patriotismo gaulês, patriotismo com convicção, bom humor e até chauvinismo - que os neoliberais de plantão estão certos de Ter enterrado sob um caminhão de cal. Na verdade, a alegoria da resistência - e os franceses são bons nisso, vide Segunda Guerra - começou meio limitada, parece que os autores não contavam sair do primeiro álbum - que os invasores gostariam fosse chamado "graphic novel" . Com o sucesso, o desdobramento das aventuras foi aprofundando nas nuances - e se tornando cada vez mais engraçado e contundente. Algo assim como esconder a roupa do imperador, ao mesmo tempo que as viagens demonstram que a resistência pode e deve partir de todos. Resistência cultural que, prá quem ainda não caiu a ficha, é a poção mágica da invencibilidade. Num certo sentido, "As aventuras de Humpa-pá o pele-vermelha", da mesma dupla de autores, são o extremo da alegoria, mas sem o mesmo sucesso. De fato, a verdade é que essa série incide mais na crítica dos clichês cinematográficos hollywoodianos - numa tradição desenvolvida longamente em Lucky Luke - do que da situação colonialista. Mesmo a transposição de situações da aldeia gaulesa para a aldeia pele-vermelha, perde força, limitando-se a graça a quem lembra de comparar as duas séries. Em todas as séries de que participou, é o humor de Goscinny que sustenta a criação e as criaturas. O já citado Lucky Luke não é a mesma coisa na mão de outros roteiristas - embora mantenha o pique e seja sempre interessante e engraçado. Quando o desenhista Morris assume também o "guião" - como dizem os lusitanos - a ironis passa a ser diferente. Tem menos brilho, digamos. A série "Strapontam", menos conhecida mas igualmente boa, desenhada por Berck, tem vida curta, ao menos em língua portuguesa. Nela é visado o público infantil, é um humor menos político que lembra outra obra-prima: "Le petit Nicolas". Este não foi para os quadrinhos, é uma história de texto ilustrada. É a única obra em que Goscinny brilha menos que o desenhista - e não é prá menos, quando se trata de Sempé, um dos maiores artistas deste planeta. E o "Grão-vizir Iznogud", roteirizado para os desenhos de Tabary, peca um pouco pelos exageros - rompe o equilíbrio entre sátira e deboche, mantido com tanto "donaire" em Asterix. Mas voltemos ao gaulês. Há um certo consenso em que o "melhor" álbum seria "Asterix entre os bretões". Na verdade é onde a sátira atinge seu refinamento mais incisivo. Um recurso simples, como traduzir as ordens inversas do idioma inglês para o francês sem realinhar as palavras; ou a naturalidade com que os ingleses fazem coisas ao contrário do resto do mundo achando que é o mundo que faz diferente deles ( como dirigir pela esquerda) são suficientes para produzir uma obra-prima de humor. Goscinny entendeu que não é preciso satirizar os ingleses, eles são uma sátira "in natura". Mas, pessoalmente, prefiro Ästerix et Compagnie". O personagem principal deixa de ser o titular e passa a coadjuvante, como o próprio título denuncia. Como em "Le domaine des dieux", o "american way" substitui os exércitos na tentativa de subjugar a cultura dos invadidos - e como se trata apenas de uma HQ, sai evidentemente derrotado. Toda a ridicularia neoliberal, estimulando um "empresarialismo" boboca, em que um relativo sucesso faz indivíduos despreparados e medíocres se acharem grandes capitalistas e saírem arrotando economês e tipo yuppie - é posta a nu em toda a sua calhordice. E como tudo o que é feito por economista, acaba por fracassar, tornando tudo pior do que antes para todos. É precisamente esse veneno satírico que a meia dúzia de álbuns publicados após a morte de Goscinny não têm mais. Têm humor, têm evidentemente o mesmo primoroso desenho de Uderzo - mas não envenena os invasores.. E o que mais se poderia dizer do baixinho invocado? Que é o maior vendedor de gibis do planeta, que revolucionou as histórias em quadrinhos, dando-lhes um prestígio enorme até prá quem não acreditava nelas? Ou que todos os álbuns são absolutamente imperdíveis? Ah, tudo isso vocês já sabem. Então, fico por aqui mesmo. |
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Violeta
de outono, Gladiador,
Invasão
dos Covers
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