|
Entrevista
– Kátia Horn Família
Horn |
||
|
Em 1989, Kátia Horn saiu de Luzerna em Santa Catarina e veio para Curitiba com o intuito de aprender e fazer arte. Logo em seguida vieram sua irmã Andréia em companhia do esposo Cláudio, ambos músicos profissionais. Nos anos que se seguiram todos os demais irmãos e irmãs ( são oito no total ) demonstraram propensões artísticas. Naturalmente surgiu a idéia de um trabalho em conjunto, o que foi possibilitado no início de 99, com a vinda de toda a família para Curitiba. Desde então eles estão desenvolvendo um projeto artístico consistente que resultou no show “Salada Horn”, uma mescla de música, humor, dança, teatro e artes plásticas. Faltando pouco mais de uma hora para a apresentação do espetáculo no Teatro Paiol, Kátia Horn concordou em conversar conosco a respeito da família, do show e outros temas.
Entrevista
realizada por João Cândido Martins 25/07/2000 |
||
|
|
||
|
Ensaios
– como funciona a interação entre essas manifestações artísticas
diversas? Todos mexem com música mas alguns também trabalham com
pintura, com teatro... existe uma conceitualidade que une essas formas de
arte? Kátia
Horn
– Música é uma coisa meio geral. Todos fazem. Eu trabalhava antes com
artes plásticas, minha irmã com música. Eu trabalhava também com
bonecos. O Guto e o Ique fazem esculturas e ultimamente o Guto tem feito
velas. Existem trabalhos distintos mas no final das contas a gente lida
com a mesma essência. Música a gente está fazendo junto. É um espetáculo
artístico, a gente está ensaiando, cantando. Alguns não tocam
instrumentos, uma parte toca mas está todo mundo cantando. E o resto a
gente vai acrescentando. O que um não faz o outro acaba fazendo junto mas
todo mundo tem talento pras artes plásticas, pra música. Dá pra gente
trabalhar paralelo. É uma interação grande. Ensaios
– levando em conta que alguns de vocês fazem trabalhos artesanais como
vocês encaram a presença cada vez mais constante da tecnologia na arte? |
![]() |
Kátia
Horn
– você se refere ao computador, não é?... à arte dentro de outros veículos...
me parece que sempre vai haver espaço pro artesanal e pra arte na sua
forma essencial. A tecnologia é um meio, você pode até jogar um
trabalho seu lá dentro da mídia mas na essência a criação não muda,
mesmo porque você pode ser criativo usando um computador ou com outros
elementos tecnológicos. A gente está trabalhando de uma maneira bastante
primitiva mas sinto que as pessoas têm muita sede disto. Elas querem ver
a pincelada. Ensaios
–
talvez a tecnologia esterilize o resultado da proposta artística, deixe
muito limpo... Kátia
Horn
– sim, sem a marca da mão humana. E é justamente a humanidade que dá
força ao trabalho. Personalidade. Ensaios
– como vocês escolheram o repertório dessa apresentação? Houve algum
critério? |
|
Kátia
Horn –
nesse primeiro espetáculo não foi estabelecido critério nenhum. As músicas
que um gostava o outro também gostava... e foi juntando. Por isso a gente
chamou o espetáculo de “Salada”. É realmente uma salada porque a
gente não tem uma linha, não foi determinado. Foi tudo no gosto pessoal,
um processo mais intuitivo. Ensaios
– Não é um pouco difícil coordenar tanta gente num projeto como esse?
|
| Kátia
Horn
– fácil não é... porque mesmo a gente sendo da mesma família, tendo
a mesma constituição genética ( risos ) ...cada um é cada um, então
você tem interesses diferentes, posturas, gostos diferenciados... mas
isso pode acontecer tanto num grupo como o nosso que é uma família, como
num grupo formado aleatoriamente, por pessoas que não se conhecem. A
gente tem a vantagem de funcionar numa freqüência parecida. |
![]() |
|
Ensaios
– funciona. Kátia
Horn
– exato, funciona. Mas sempre rola um espinho aqui, uma divergência
ali. A gente resolve como qualquer outro grupo: conversando Ensaios
– você que já está há algum tempo trabalhando com isso, como vê a
receptividade do público a trabalhos artísticos independentes? Vocês
estão buscando apoio das Leis de Incentivo? Kátia Horn – Bom, a gente tá num processo muito interno nesse momento. É um ano e meio praticamente que a gente tá trabalhando, então a gente tá muito voltado pro que tá acontecendo internamente, organicamente nesse processo. Mas a gente já tá desenvolvendo uns projetos pra lei de Incentivo porque a gente tem esse interesse também, é claro. Se os recursos estão aí e a gente tem um trabalho, vamos juntar as coisas. Se isso vai facilitar o nosso trabalho, a gente espera que isso aconteça. Mas a princípio, a gente tem trabalhado pelas nossas próprias pernas. A nossa subsistência tem sido a arte porque a gente abriu mão de qualquer outra coisa. Os meus pais quando vieram de Santa Catarina deixaram uma empresa lá, deixaram tudo e estão vivendo de arte. Então a gente tá estabelecendo esse primeiro contato de viver dos nossos trabalhos, do que a gente vende e, a partir de agora, com a montagem desse show a gente espera ter um retorno. É um trabalho independente mas a gente está em busca de pessoas que vejam isso e queiram contratar o nosso trabalho ou patrocinar. A gente espera por isso. |
![]() |
Ensaios
– você acredita que o público está sendo mais receptivo a esse tipo
de iniciativa independente? Porque parece que as pessoas em Curitiba têm
um certo receio das coisas produzidas aqui. |
| ? Ensaios – você poderia comentar rapidamente sobre cada um dos integrantes? |
| Kátia
Horn – Bom, eu sou Kátia, sou a filha mais velha. Trabalho com
artes plásticas, com bonecos, tenho uma boneca chamada Balesca que já
trabalha comigo há cinco anos e tem um repertório, e também estou
cantando junto com o grupo. Daí vem a Andréia que é cantora
profissional há mais de dez anos. Ela também pinta, também trabalha com
artes plásticas, é mãe do Gustavo, o menininho, nosso sobrinho que tá
participando do show. Ele tem seis anos. E a Andréia também faz os
arranjos vocais. Aí vem a Alessandra. Ela faz todos os adereços que a
gente tem, material de espuma. Ela é super hábil manualmente. Também
pinta e canta no show. Aí vem a Agda. Ela também pinta ... todo mundo
pinta lá em casa. Ela também canta no espetáculo. Manipula uma das
bonecas e também faz a parte de pesquisa. Ela gosta muito de ler, gosta |
|
| de
línguas. Então quando a gente precisa de algo nesse sentido é com ela.
Aí vem a Bárbara que toca violino, canta faz alguns solos e também mexe
com artes plásticas. Depois vem a Soninha que toca violoncelo, canta e
também pinta. O Henrique é nosso baterista. Ele também canta e faz
essas esculturas de sucata. E o Guto, o Augusto. Toca teclado, faz nossos
arranjos instrumentais, canta e tá fazendo essas velas. Como todo mundo
também pinta. O Gustavo, filho da Andréia, tem 6 anos, faz uma série de
números durante o espetáculo. A mãe, a Dolores costurou os figurinos.
Cuida de toda a infra-estrutura da casa. O pai, Neri, construiu os nossos
cenários e ele é quem constrói os objetos de madeira nos quais a gente
pinta. A gente tem uma loja lá no Estação Plaza, chamada A Casa da Família
Horn onde a gente expõem todos os objetos que a gente faz. |
|
|
Ensaios
– Também já vi uma exposição das esculturas em sucata num
restaurante na Trajano Reis. Kátia
Horn
– é, o Missô. Ensaios
– na
música vocês dão mais ênfase ao lado popular ou ao erudito? Kátia
Horn –
o popular. A parte mais forte que nós temos é a vocal. O instrumental
vem vindo em paralelo mas o vocal é o ponto forte da nossa manifestação
musical. E a gente tem desenvolvido alguns trabalhos, buscado auxílio técnico
com músicos da cidade, pessoas que já trabalham na área e que estão
dando algum apoio e algum embasamento técnico e teórico pra gente. |
![]() |
Ensaios
– a família enquanto instituição sempre foi uma pedra angular em
todas as sociedades mas de uns anos para cá, ela perdeu muito da sua força,
inclusive pelas mudanças que a própria sociedade como um todo vem
atravessando. Então é curioso porque a opção que vocês fizeram de
trabalhar em família soa quase como algo alternativo às demais propostas
artísticas . Como você vê isso? |
|
Kátia
Horn
– não vejo a coisa apenas como uma forma de manifestação artística
mas sim como um meio de falar da própria família. A gente sabe que tem
essa função. É um grupo familiar, uma coisa que não acontece mais hoje
em dia. As famílias se desmontam, elas não continuam trilhando um
caminho conjunto. Então a gente sabe que é realmente um formato
alternativo, claro. Embora existam outros grupos com a mesma estrutura
como o Fat Family, a Família Lima, algumas famílias que estão
aparecendo por aí. Então parece que as pessoas tem um interesse. Você
fala de família e fica todo mundo antenado. Realmente a instituição
familiar deu uma desmontada nesse final de século mas as pessoas têm
essa necessidade, elas querem esse retorno. Voltar pro clã que é na
verdade a primeira ligação que a gente tem. Então a gente tenta mostrar
que família é possível.
|
|
Violeta
de outono, Gladiador,
Invasão
dos Covers
|