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ENTREVISTA |
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Violeta de outono está na estrada há mais de quinze anos produzindo suas sonoridades viajantes, melancólicas, exaltadas, etc. Egressos da primeira formação do grupo Zero, Fábio Golfetti e Claudio Souza se unem, em 1984, a Angelo Pastorello e fundam o Violeta de Outono. Aos poucos o grupo vai ganhando espaço com a sua mistura psicodélico-progressiva e, em 86 eles recebem o prêmio de revelação da revista Bizz. Um dos nomes mais importantes do rock nacional, o Violeta de Outono possui uma obra que surpreende por suas inquietantes composições, oriundas da evolução musical do grupo. O guitarrista Fábio Golfetti é o único remanescente da formação original. Além de elaborar projetos paralelos como a versão brasileira do grupo Invisible Opera of Tibet, Fábio tem mantido o Violeta em atividade e lançando discos como “Mulher na Montanha” de 98. A mais recente aparição do grupo foi em junho no programa Musikaos da Tv Cultura de São Paulo. Maiores informações sobre o grupo podem ser lidas no site www.voiceprint.com.br/violeta. Nesta entrevista ele fala um pouco sobre a história do grupo e opina sobre mídia, cultura, psicodelia e rock progressivo. |
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Fábio Golfetti Havia várias bandas fazendo todo tipo de som mas eu acho que aconteceu o seguinte: as pessoas se interessaram pelo lado da raiz do rock. A abordagem era progressiva mas havia muito de Beatles e psicodelia e as pessoas queriam ouvir isso. Por outro lado não era totalmente progressivo, então a música conseguiu atingir um público jovem e também o pessoal mais antigo. A coisa ficou bem variada. João Mas não chegou a rolar nenhuma espécie de repúdio do pessoal mais radical? Fábio Golfetti Não. Foi até engraçado porque um dos primeiros caras que deu uma força pro Violeta de Outono... você conhece um grupo chamado Ratos de Porão? |
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João Sim,
João Gordo...
Fábio Golfetti Pois é, na primeira entrevista que ele deu, falou bem do Violeta, eu tenho até guardada essa entrevista. Ele disse que era o único som nacional que ele gostava... ( risos ). Então mesmo o pessoal punk acabou tendo interesse... se o João tava falando valia a pena dar uma conferida. João No começo da década de 80 estava havendo um renascimento do progressivo com Marillion, IQ e outros grupos. Depois isso baixou até que nos anos 90 surgem novos grupos de países nórdicos, do Japão, etc. Como você vê o futuro do rock progressivo? |
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| Fábio Golfetti
O progressivo sempre foi meio auto-suficiente... não é como no Heavy
Metal mas o pessoal que curte progressivo se comunica no mundo inteiro e
tem festivais, fanzines, notícias rolando, então uma coisa alimenta
outra... o que eu acho é que... tem um monte de grupos surgindo como o
Ritual da Suécia... até a gente tocou recentemente no Rio com o Pär
Lindh. São grupos muito interessantes mas perto do que o progressivo foi
nos anos 70, não há nem como comparar. Na verdade me parece que as
bandas antigas tinham uma linguagem mais pop... pop no sentido de ser mais
assimilável, acessível...
João Mais universal... Fábio Golfetti Exato. E sem abandonar uma certa complexidade que é característica do estilo. Eu gosto de coisas progressivas mais radicais como o Gong ou o Soft Machine que tá no limite entre o progressivo e o jazz mas me parece que os grupos progressivos atuais usam uma linguagem muito difícil, isto é, eles não fazem concessão alguma. Ou acontece desses grupos fazerem o que já foi feito e, normalmente, o original é muito melhor. Mas o importante é que haja pessoas fazendo esse tipo de música. É um tipo de som no qual sempre existe a possibilidade de surgir alguma coisa nova, diferente. Como esse grupo que eu estava falando o Ritual, da Suécia que é muito interessante. Mistura de uma forma original Yes, King Crimson, e o som é pesado... muito legal. Agora me parece que uma evolução interessante do progressivo, ... não exatamente uma evolução mas uma vertente que também veio da música psicodélica é essa coisa da Trance Music que, apesar de ser quase que puramente eletrônica herdou alguns traços do psicodelismo. João Alguns desses ritmos são bastante hipnóticos, não é? Fábio Golfetti Sim, de uma forma ou de outra, passa um pouco da idéia do progressivo de viagem, não o progressivo clássico e sim aquele mais viajante... João Como Floyd. Fábio Golfetti Sim. E Bowie de algumas fases, Tangerine Dream... João Como funciona o projeto Invisible Opera? Você mantêm contato com o David Allen? Tem projetos futuros com ele?
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Fábio Golfetti Mantenho contato com ele já há algum tempo. Eu me correspondia com o GAS, Gong Apreciation, ... não era exatamente um fã-clube. Eles faziam até encontros com o próprio David e outros membros do Gong. Isso foi em 79, 80 mais ou menos. Eles mandavam informações, fitas... aí eu acabei conhecendo o David Allen em 89 por intermédio de uma amiga que mora na Inglaterra e ela tava lançando um disco pela mesma gravadora do David, então ela fez a ponte. Nessa época eu tava interessado em usar o nome do Invisible Opera que é dele, isto é, ele criou o grupo na Austrália depois a coisa se estendeu até a Inglaterra e outros países. A idéia era essa, grupos sem lugar certo de origem ou mesmo sem integrantes fixos | ||||
| João Mas qual é o ponto em comum entre essas bandas espalhadas pelo mundo?
Fábio Golfetti o ponto em comum é a influência Gonguiana, algo não necessariamente progressivo... um tipo de som com orientações espirituais, fundamentado até na cultura oriental, com elementos da música celta. Mas a convergência era no Gong, ... na idéia de abertura de influências que sempre foi uma característica dessa banda. E eu mantenho contato com esse pessoal da Austrália, com o pessoal da Inglaterra. Todos lançaram discos e nós também, em 97, pela Voiceprint, uma gravadora que foi ligada ao Gong no começo. João Pra ser honesto do Gong eu conheço o Angel's Egg que é o segundo daquela trilogia. As pessoas rotulam como progressivo mas me parece um disco de rock psicodélico Fábio Golfetti O disco You que é o terceiro é bastante progressivo... de 74. Muito sintetizador... inclusive é um disco que tá inserido naquilo que eu te falei sobre a influência progressiva na música Trance. O grupo the Orb e outros remixaram o disco inteiro a partir da fita master original. “Gong You Remixes”, algo assim... vários grupos ingleses que pegaram, cada um, uma faixa e remixaram. Uma experiência interessante. Mas voltando ao Gong, é um som que me influenciou muito. Desde os 15, 16 anos... uma coisa que ficou até hoje. Não só o aspecto musical mas os conceitos, a forma de viver. Senti uma afinidade. Tanto que ficamos amigos. João Voltando um pouco ao Violeta de Outono, no começo da década de 80 havia outros grupos progressivos ou psicodélicos atuando em São Paulo? Fábio Golfetti Psicodelia eu acho que só o Violeta... tinha alguns grupos que misturavam coisas psicodélicas com pop ... o Musak, ... uma série de outras bandas que faziam algo próximo mas não muito. E progressivo acho que não tinha nada. Bom, tinha o pessoal que era da década de 70 como O Terço, Patrulha do Espaço, grupos que trabalhavam com isso mas banda nova, acho que era só a gente. João Na Inglaterra as bandas progressivas vieram da psicodelia ao passo que no Brasil, com exceção dos Mutantes, os progressivos já começaram como progressivos. É isso ou eu tô enganado? Fábio Golfetti Bom, é difícil dizer porque pelo que eu sei, tirando Mutantes e O Terço não existem muitos registros sobre outros grupos... mas é aquela história: no Brasil as coisas sempre chegam depois e as bandas acabavam de alguma forma copiando a matriz. Não copiavam no sentido literal da palavra mas faziam o que o próprio Violeta fez: pegavam uma série de influências ou se baseavam em algum grupo pra poder criar um som daqui, um som próprio. Mas me parece que Mutantes é a única banda que se iniciou psicodélica, e conseguiu durar tempo suficiente pra se transformar em progressivo. Confesso que eu não sei de outras bandas. Eu era muito novo na época. João E a mídia não se interessou em mostrar ou registrar outros grupos... Fábio Golfetti É. Os Mutantes estouraram. E passaram por todas essas fases até chegar no Tudo foi Feito pelo Sol, do Serginho. Tem o OAEOZ que é um disco que mistura hard, progressivo... João E tem aquele disco da Rita Lee ( que na verdade é dos Mutantes ) o “Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida” que me parece ser o momento de transição pra algo totalmente progressivo, a começar pelo baixo do Liminha. Aí no OAEOZ os caras assumem de vez a o estilo. Fábio Golfetti é mas eu vejo muita coisa de hard rock nesse disco. João Tem algum fato curioso ou engraçado na história do Violeta? Fábio Bom, muita coisa ... o empresário do Zé do Caixão convidou a gente pra participar de uma festa de Halloween. Aí a gente tocava enquanto o Zé fazia aquela performance... sei lá, um monte de coisas curiosas. No nosso site conta tudo. João Quais são os projetos futuros do Violeta? Fábio Golfetti Como eu te falei, o Violeta de Outono tocou bastante de 86 a 90. Em 91 o Cláudio baterista saiu, entrou outro e a gente continuou até 92 quando parou de vez. Aí em 94 eu comecei a ir atrás dos discos que a gente lançou pela RCA pra relançar em cd e a gente voltou. Até recentemente a gente lançou um disco novo chamado “Mulher na Montanha”. A gente tinha gravado esse disco pela BMG e ia fazer uns shows mas daí como o disco não saiu, a banda deu um tempo. Até que depois a gente conseguiu lançar o disco pela Voiceprint, aquela gravadora inglesa que eu havia comentado. Mas a banda original não tá a fim de voltar a se apresentar então eu tô reformulando o grupo. João e quais seriam as diferenças desse disco “Mulher na Montanha” e dos primeiros? O que mudou? Fábio Golfetti Mais experiência em termos de composição e arranjo mas o estilo de música é o mesmo. É diferente do disco “Em Toda Parte” que é um disco meio errático ... a gente tentou fazer outro tipo de produção mas a coisa não funcionou muito bem. O novo retoma muito o clima do começo, mais pra psicodélico do que pra progressivo. Não tem eletrônica, só guitarra, baixo e bateria. Tem um ou outro teclado, algum efeito mas nada em excesso. Tá sendo relançado também o nosso disco de 97 com o Fábio Ribeiro do Blezqi Zatsaz, aliás nesse disco novo ele participa de algumas faixas. Mas nesse disco de 97 que é ao vivo ele toca o show inteiro então o som ficou bastante progressivo. |
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| João Você não tem medo de soar anacrônico por fazer psicodelia e progressivo?
Fábio Golfetti como eu disse, acho que o progressivo é uma evolução do psicodelismo que era uma manifestação da atitude hippie. Não quero dizer que eu seja hippie mas eu acredito naquele tipo de idéias, naquela liberdade. Mas é claro que não é todo som progressivo que eu gosto. Ouço os medalhões como Yes... aliás eu gosto muito do Steve Howie, conheci o cara pessoalmente. Gravei até duas entrevistas com ele pra serem publicadas no jornal Metamúsica e ficamos amigos. Então eu realmente gosto muito dessas bandas clássicas do progressivo, ELP, Yes, Crimson, Van der Graaf. Agora, eu também gosto muito desse psicodélicos de Canterbury, as vertentes que surgiram com Soft Machine/Gong... João Caravan... Fábio Golfetti isso, ... Hattfield and the North, .... então esse espírito de liberdade é o que eu sempre procuro, independente de ser anos 80, anos 90... mas o que aconteceu é que da década de 70 pra cá, o mercado da música engoliu tudo isso aí ... João a coisa degringolou. Fábio Golfetti Pois é, não dá pra competir. Então essa gravadora Voiceprint ainda se mantém fiel a esse estilo. O artista lança o que ele quer. Por outro lado quando tem muita grana na parada a coisa sai um pouco do controle. João Com certeza. Fábio Golffetti Mas eu também gosto de coisas como Led Zeppelin que é um exemplo de originalidade... eu acho até que é a banda que eu mais gosto e ela nem é progressiva. Então o que vale é o espírito. João É um pouco complicado ficar rotulando esses grupos. Ou se rotulando... Fábio Golfetti Sim, mas hoje em dia existe muita coisa. Subdivisões... coisas do mercado... ou daquele tipo de cara que tem a gaveta das meias brancas, a gaveta das meias pretas ( risos ). João Com essa abertura que o rock vem tendo na mídia, acredita que o progressivo possa encontrar algum espaço? Fábio Golfetti acho difícil porque as pessoas que trabalham na grande mídia abominam o progressivo, as idéias que envolvem o estilo... João existe um preconceito. Fábio Golfetti Existe porque pra eles a coisa se tornou sinônima de coisa chata, careta, grandiloqüente, milionária... e o pessoal da imprensa gosta de valorizar a atitude rebelde, coisa que, de fato, não é muito presente no progressivo. Em certos casos até tem isso mas não é uma característica do movimento. Agora, quando vem um medalhão pra cá aí eles comentam, falam... Mas eu acho que se depender da imprensa brasileira tem muito pouca chance desse tipo de música Ter espaço. Se bem que o pessoal do Rio de Janeiro é muito receptivo ao progressivo. Eu me lembro que quando eu tinha 15 anos ia até o Rio pra comprar discos de progressivo. Mas... fora de lá, muito difícil. São Paulo então... João Bom, mas aí tem a Progressive Rock World Wide... Fábio Golfetti É, mas muito pequena, muito isolada. Tem a Record Runner lá do Alberto, meu amigo, mas são coisas isoladas. Às vezes acontece algum festival mas é muito difícil. Ainda mais o público progressivo que é meio preguiçoso, não sai de casa ( risos ). Mas é uma coisa estranha. Eu vou continuar tocando o meu som mas tô vendo que vai chegar um momento que não vai Ter onde tocar... |
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